domingo, 21 de outubro de 2007
Um nos dois.
Para cada passo dado um corte raso na neblina densa do breu das nuvens.
Do adeus dado e do beijo sussurrado...
Pude sentir o verde da liberdade.
Das dores nem os sabores levei.
Cravei a ponta do lápis naquele ponto final.
Aquele lápis azul nostálgico, azul cortante, azul amargo.
Deito nos meus deleites imaginários.
Caiu em devaneios utópicos.
Saudosa de ti, porém impregnada de futuras cores.
Cores vivas, falantes, ofegantes.
Da liberdade nunca exigir asas, apenas sapatilhas.
Da liberdade nunca exigir explicações, apenas recordações olorosas.
Deita-te na penumbra das minhas lembranças e fica.
Perpetuado. Pertencendo ao passado. Guardado para o futuro!
Enquanto calço meu all star, sinto o prazer de inalar o vapor cafeinado,
que aos poucos domina e purifica o meu lar. Meus lábios.
Meus dias são coloridos e repletos; café, sorvete, incensos,
rosas, lençóis, livros... lágrimas e travesseiros.
Júlia Costa e Marcus Danilo Moreira da Silva - 2007.Quem sabe, faz. A quatro mãos dois jovens amigos nos mostram que podem falar de coisas lindas e defitivamente não findas. Ainda tem quem acredite em sonhos, amor e paz.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Postcard.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Sob a marquise.
domingo, 14 de outubro de 2007
Sertões do Ceará
Essa é uma visão de viajante na janela do trem o tempo todo grudado os olhos na correria das carnaúbas, dos postes, dos serrotes, dos gaviões voando baixo caçando cobra e todos os outros bichos que se misturam com o cascalho pedregulho destes solos de secura dominante a perder de vista.
Esta é uma visão de olho arregalado de quem já namora a insônia há tanto tempo que não sabe mais nem dormir como os viventes transeuntes cautelosos de todo o dia de trabalheira sem fim.
A janela do trem vai dando para um mundo sem cortinas num cenário que parece não mudar só o olho que vai se alargando num rasgão para caber aquela toda vastidão sem alma nenhuma, só pedra, areia grossa, mais pedra ainda e sol que retine nos trilhos que parecem ferrões de prata lancetando aqueles cafundós.
Vem um som de dentro dos miolos que encerra um Deus nos acuda num grito abafado de quero sair daqui de qualquer jeito por qual caminho que seja de onde vier aparecer. Mas é só ter paciência que não tarda a tudo amainar e a dor vozeirão se calar de vez.
A noite chega como uma cuia dum coité imenso que vai cobrindo as vivências todas protegendo num acarinhado de dormência o corpo que se deixa desistir tão destrambelhado que jaz de montinho por cima das cobertas, pano de rede de tantos remendos retalhados e rejuntados com linha de toda cor.
Do noturno assoma a cantoria do vento nas locas soprando um baixo de tutano bem encorpado, mais o piado dos pássaros e o rasgar das corujas criando com os grilos um brocado de finas harmonias se aveludando tudo numas bocas de lábios de brisa na galharia seca, lambendo as feridas da taquara largando no ar um cheio de notas frescas que sonham na cabeça da gente um cinema de pinturas e desenhos de uma beleza tão danada que só faz lembrar um coro de anjas de cabelos de milho esvoaçados dançando numa roda de enrodilhar a gente numa fartura de felicidade que nenhum humano ser vivente jamais viveu.
Nem jamais verá.
Diário de viagens. Inhamuns, carnaval de 1989


